terça-feira, 5 de agosto de 2008

O Espírito da Coisa - 9

O Espírito da Coisa
acrilico sobre tela
60X90cm
Julho de 2008
Esta é a tela que dá o título à exposição (em boa verdade é mais o contrário mas, enfim...). A estrutura geral da composição foi rapidamente encontrada. O que demorou mais tempo a definir foi a personagem central. Acabou por ser um rapazinho (uma memória do careca em 1º plano?) mas antes foi uma rapariguinha. É mais um exemplo da forma como determino a natureza iconológica dos meus trabalhos que resultam de longos momentos defronte à obra inacabada, reflectindo sobre o que me está a obra a dizer e sobre o que lhe estou eu a dizer a ela. Acabamos por estabelecer um compromisso que depois é apresentado ao observador eventual para que faça dela o que melhor entender ou for capaz de fazer.
Em termos formais, esta tela é um pouco conservadora se tiver em conta as experiências que tenho vindo a fazer nos últimos meses. As figuras dançam entre os meus adorados góticos (embora não consiga a lisura nem o brilho dos meus ídolos desse período) e a crueza do mestre Goya, que tanto observo quando estou a pintar.
Enfim, não querendo parecer aquilo que nunca serei, é uma pintura razoável, sem grandes virtuosismos (porque os não tenho nem domino) mas carregada de dramatismo romântico, como eu gosto.
Em termos técnicos posso frisar que se trata do resultado de um exercício que me foi proposto por Jorge Pinheiro, quando fui seu aluno na Escola de Belas-Artes de Lisboa. Os tons mais profundos foram alcançados sem recorrer nunca à tinta preta, embora por vezes isso seja difícil de acreditar.
Nota: a foto é realmente muito má.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

O Espírito da Coisa - 8

Um Amor Assim É Coisa Pra Não Ter Fim
acrílico, colagem e tinta-da-China sobre papel
50X65cm
Março de 2005
Neste trabalho utilizei recortes de outros trabalhos da minha autoria. Nos dias que correm faço isso com mais convicção. É uma imagem que "fala" de relações difíceis mas intermináveis. Relações apaixonadas entre pessoas que se amam ao ponto de se odiarem mutuamente.

O Espírito da Coisa - 7

Isto Sou Eu
acrílico, colagens e tinta-da-China sobre papel
50X65cm
Fevereiro de 2005
Na maior parte dos casos as minhas pinturas não partem de qualquer estudo prévio. Pintar torna-se um processo de descoberta formal absolutamente imprevisível. É um processo algo semelhante ao que foi descrito por Max Ernst quando propunha que se atirasse um trapo embebido em tinta sobre uma superfície e depois nos sentássemos a olhar para a mancha assim produzida, esperando que a forma nos sugerisse algo próximo de uma paisagem ou uma narrativa.
Desta forma surge uma iconografia inesperada e, como tal, até mesmo a iconologia é desconhecida do próprio criador da imagem. Este género de processo criativo exige uma cadeira, um maço de cigarros e algo para beber de vez em quando.

domingo, 3 de agosto de 2008

O Espírito da Coisa - 6

Em que é que ficamos?
Colagens e acrílico sobre papel
50X65cm
Fevereiro de 2005
Esta pintura é vagamente inspirada na tela de Caravaggio conhecida como O Sacrifício de Isaac. A situação é bem conhecida. Abraão prepara-se para limpar o sarampo ao seu único filho (e que trabalheira tinha sido para o cachopo vir ao mundo!) tal como o próprio Deus lhe tinha ordenado e é impedido no último instante por um anjo. O Anjo aponta um carneiro como quem diz "Sacrifica o bicho" e Abraão deve ter ficado bem confuso. Mas que raio de coisa! O que queria Deus provar com toda aquela confusão?
Realmente, a fazer fé neste episódio bíblico, Jeová não sai nada bem na fotografia e parece um entidade caprichosa e pouco preocupada com questões psicológicas. Isaac não ganhou para o susto, Abraão deve ter ficado bastante traumatizado com o episódio e o carneiro, como de costume, é que se lixou.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O Espírito da Coisa - 5


Um Demónio no Inferno
50X70cm
óleo sobre tela
1998
Este será o único trabalho de O Espírito da Coisa executado a óleo. Concluída no ano já um pouco longínquo de 1998, esta tela tem uma história que não cabe aqui mas que faz dela um objecto muito especial para mim. Há já alguns anos que não trabalho a óleo. Os acrílicos são uma tentação demasiado forte e deixam menos desperdícios. São mais fáceis de manipular, os pincéis lavam-se com aguinha da torneira e secam com um rapidez estonteante. Os óleos exigem outro tipo de tarefas na manutenção do material e os diluentes a eles associados são demasiado incómodos para quem trabalha dentro de casa.
Um Demónio no Inferno é uma imagem de intimidade. Pai e filho brincam distraídamente com a imagem da mãe pairando sobre eles. Ao fundo um barqueiro ardente desempenha as suas tarefas quotidianas.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

O Espírito da Coisa - 4

Páscoa
tinta-da-China e colagens sobre papel
100X70cm
2004
Este desenho é fruto de uma experiência técnica. A impossibilidade de encontrar tinta branca com opacidade suficiente para corrigir superfícies cobertas a preto levou-me a utilizar papel branco. Depois de colado, o papel era de novo pintado a preto, continuando a forma anterior. Deste modo, a superfície ganha uma textura estranha e irregular e o desenho evolui de forma algo selvagem e um tanto caótica. Assim explicado torna-se um bocado confuso mas o resultado foi bastante satisfatório e defini uma técnica de desenho que nunca havia utilizado antes.
Desde este desenho passei a utilizar a colagem com alguma insistência apesar de nunca ter produzido outro trabalho com estas características de forma tão assumida e acentuada.
A foto padece dos mesmos sintomas problemáticos que a anterior apesar de ter algumas correcções de brilho e contraste executadas com o Photoshop.

O Espírito da Coisa - 3

Conversa de Cavadores de Enxada
acrílico, tinta-da-China e colagens sobre papel
100X70cm
2004
Este trabalho já esteve exposto na galeria Zé dos Bois numa colectiva aqui há uns anitos, não me recordo bem quando (em 2004 presumivelmente). É uma das minhas primeiras experiências com tão grande misturada de materiais e técnicas. A narrativa até a mim escapa. A leitura desta obra é tão aberta que nem me atrevo a explicá-la. Há ali coisas tão abstrusas que o melhor mesmo é ser o leitor a decidir sobre o seu possível significado. Aliás é assim que deve ser sempre e em cada uma das situações. Afinal de contas, nesta exposição, ando (andaremos) à procura do Espírito da Coisa, seja lá isso o que for.
A imagem é meio estranha pois o trabalho está encaixilhado e tem um vidro a protegê-lo das agruras do tempo o que torna demasiado difícil conseguir uma foto decente. Principalmente para um fotógrafo tão descuidado e desconhecedor como eu.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

O Espírito da Coisa - 2

Peacemakers
acrílico e tinta-da-China sobre papel
100X70cm
concluído em Junho de 2004
Pintura realizada nos espaços de aula da escola onde sou professor. Ao longo de alguns meses fui avançando na execução deste trabalho perante alguns dos meus alunos. Por vezes sentavam-se a observar o que eu fazia, trocando ideias e tentando compreender os motivos que me levavam a construir esta imagem.
Em termos iconográficos e iconológicos é bem mais simples que o Tríptico da Salvação. Os "Fazedores de Paz" usam as armas para debaterem as suas ideias. No centro da composição, a remeter para os frisos gregos na forma como alinha as personagens num primeiro plano fechado que apenas tem contraponto numa ruína arquitectónica ao fundo, há uma personagem com um funil na cabeça, símbolo do tolinho da aldeia em alguma pintura medieval (ver Bosch). Essa personagem segura na mão esquerda uma pomba (símbolo da paz) enquanto que, com a mão direita, aponta o céu, invocando a bondade divina. Tem um nariz desmesurado pois, mesmo que inadevertidamente, as suas palavras escondem demasiadas "inverdades".
Tem uma corrente que lhe prende o pescoço à mão de uma personagem inquietante, no canto esquerdo da composição. Essa personagem é o mentor do processo de paz. Veste um fraque e bebe uma bebida fina, num copo muito especial. A sua fisionomia não inspira mais confiança que a das restantes personagens.
No centro, em baixo, há uma outra pomba da paz, esta em mau estado, junto a um cão raivoso. Os inimigos, de ambos os lados, têm um aspecto demoníaco e parecem pouco interessados naquilo que o tolinho da aldeia (global) lhes propõe.

terça-feira, 29 de julho de 2008

O Espírito da Coisa - 1

Tríptico da Salvação
acrílico sobre papel
3 vezes 50X109cm
concluído em Janeiro de 2005
Este painel foi o trabalho mais demorado que me lembro de alguma vez ter executado. Terei trabalhado nele ao longo de, aproximadamente, um ano. Talvez mais. Tem uma iconologia complexa que não vou estar aqui a esmiuçar. A iconografia é mais simples e entendível. Desde a Salvação pela intervenção política e militar, passando pela Salvação conseguida através do sacrifício até à Salvação pela Fé no poder divino, cada uma das 3 partes do painel tem referências mais ou menos directas a personagens fascinantes da História da Arte. Compete ao espectador descobrir essas relações ou se, por hipótese, se estiver a cagar nessa cena faz ele muito bem, que a pintura é para fruir e não carece de grandes explicações para poder ser adquirida por quem a observa.
Ofereci este conjunto de pinturas ao meu irmão e actualmente está exposta na sala de casa dele. Pedi-lha emprestada para O Espírito da Coisa e ele acedeu (que remédio!). É uma peça importante no conjunto do meu trabalho com exploração da cor (acho que nunca pintei nada tão cor-de-laranja como aquele pedaço do painel à vossa direita).

segunda-feira, 28 de julho de 2008

O Espírito da Coisa

A partir de hoje e durante uns dias irei colocar no Carapau imagens referentes à minha próxima exposição a realizar no Contagiarte, Espaço de Sensibilização, Formação e Dinâmica Culturais, Rua Álvares Cabral, 372, Porto, Portugal, União Europeia, Planeta Terra. A inauguração está prevista para o próximo dia 9 de Setembro.

Esta imagem é uma espécie de cartaz que produzi no Adobe Photoshop (benza-o Deus) a partir de uma foto tirada à minha mão sobre a tela que dá o título à exposição.

sábado, 26 de julho de 2008

Guarda-livros

Guarda-livros
acrílico, tinta-da-China e colagem sobre papel
dois mil e qualquer coisa
tamanho A3

quinta-feira, 24 de julho de 2008

O Último Crente


O Último Crente
ou
Herói da Classe Operária
acrílico sobre papel
50X65cm
iniciado em 2002 e retocado recentemente
(Work in progress, como diz o outro)
trabalho incluído em O Espírito da Coisa

terça-feira, 22 de julho de 2008

A Sociedade das Flores (2)


A Sociedade das Flores foi um projecto que abortou. Um espectáculo teatral que não passou de uma incipiente fase de ensaios. Tentámos ressuscitar um cadáver esquisito e o resultado foi um nado-morto. Nada de mais nem de menos. Apenas aquilo, exactamente. Aqui fica um excerto, um monólogo que ainda foi dito e ensaiado uma mão-cheia de vezes pelo André Louro. Apeteceu-me colocar isto no Carapau Staline. Outros textos virão, lá mais para a frente. Não é por nada, mas escrevi estas linhas e não passaram completamente para o "outro lado". Que passem agora.


Cena – Guarda-chuva cor-de-rosa

- Aconteceu e nunca mais me esqueci.
Não tenho bem a certeza de que as coisas se tenham passado exactamente assim mas é assim que as recordo.
Na verdade sei apenas que aconteceu.
Estava um homem deitado ao comprido no passeio, como um cobertor.
Não tinha sangue nem havia sinais de violência. Parecia apenas adormecido, esquecido do mundo.
Os transeuntes passavam pelo homem como se ele não existisse, como se não estivesse ali. Desviavam-se com gestos imperceptíveis, delicadamente.
Havia qualquer coisa de belo em tudo aquilo, a leveza dos gestos das pessoas, a posição do corpo estendido... fiz como os outros, desviei-me, mas os meus olhos prenderam-se àquele vulto amarrotado.
Ao passar por ele torci o pescoço. Não queria perder aquela imagem.
Foi então que um cão se destacou do espaço em volta, como se se tivesse materializado ali, naquele preciso momento. Um rafeiro amarelo e sujo que começou a farejar o homem.
Ninguém olhava, apenas eu parecia assistir ao pequeno espectáculo.
O cão lançou um olhar na minha direcção e rosnou.
De súbito o corpo mole teve um espasmo, contorceu-se e levantou-se de um salto.
O cão ganiu e fugiu, volatilizou-se.
O homem era enorme.
O cabelo comprido e a barba davam-lhe o aspecto de um Cristo medieval, daqueles Cristos juízes, ameaçadores, com um livro numa mão e a outra erguida numa bênção assustadora. Os olhos encovados, bordados com fundas rugas pareciam buracos sem vida. Por um momento tive a sensação de que todo o frenesim da rua havia parado.
Dos olhos do homem jorrou uma luz intensa, brilhavam como faróis e os pés descolaram ligeiramente do chão.
Levitava!
Senti a minha boca abrir-se num esgar de espanto.
Levantou o braço direito, esticou-o em direcção ao céu e subiu em grande velocidade, puxado por um cabo invisível, como um super-herói de banda desenhada.
Vuuuut!!! Desapareceu para lá do topo dos prédios, para lá das nuvens, foi-se embora voando como um míssil.
E começou a chover.
Uma mulher abriu um guarda-chuva cor-de-rosa e tudo na rua recomeçou a funcionar normalmente.
Afastei-me dali com o coração apertado e uma tremenda vontade de chorar.
Foi o que fiz.
Chorei durante 24 horas seguidas e, desde esse dia, nunca mais fui capaz de chorar.

A mulher apaga-se bruscamente.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

O Espírito da Coisa

O Espírito da Coisa
Acrílico sobre tela
60X90cm
Julho 2008

quarta-feira, 16 de julho de 2008