Nem o monstro é sempre o mau da fita, nem o lindinho anda a fazer mal à mãe para ficar mais bonito. O mundo que nos rodeia esconde tantas coisas estranhas que a normalidade já não parece tão selvagem como deveria parecer. Quero um geladinho de morango e ninguém mo pode comprar porque não estão a produzi-lo na fábrica. Quero uma coisa impossível e isso só pode provocar angústia. Porque não existe aquilo que não existe? Porque sinto este buraco no meio do peito de onde me parece que caiu o coração que me falta?
Desenho a tinta-da-China (por acaso o frasco diz "tinta indiana") a partir de uma foto a preto e branco. Tive de encurtar as pernas para caber na folha (tamanho A4). Se esse tipo aí baixa os braços, vão arrastar no chão.
Outro desenho realizado a partir de uma fotografia que representa uma escultura gótica da catedral de Chartres. Abraão a pensar no pedido de Deus para sacrificar o seu filho, Isaac. Talvez seja tema para uma pintura. Ando a pensar nisso.
Estranha esta luz que engulo deitado na escuridão. Lembro um tempo esquecido. Um menino. Muitas mulheres. Mães, avós, tias, meninas também. E outras. Coisas insuspeitas. O calor a rachar o frio em dois. A partir o frio em bocadinhos. Peles. Lábios. O cheiro de uns cabelos longos e escuros. Porque terei sido agora visitado por tais fantasmas? Bebemos um chá. Recordámos esses tempos o melhor que capazes fomos. Eu. Os fantasmas. E os outros.